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Felipe Tadeu é jornalista especializado em música brasileira, produtor do programa radiofônico Radar Brasil (Rádio Darmstadt). Radicado na Alemanha desde 91, o autor é também conhecido como DJ Fila. Na novacultura assina a coluna »o som do brasil«


 

 

Codona - As instâncias mais livres do ser

A música gerada pelo trio formado por Naná Vasconcelos, Collin Walcott e Don Cherry expandiu as fronteiras do experimentalismo acústico

Felipe Tadeu, 13.01.2009

A felicidade vem muitas vezes pelo correio. A ótima surpresa que tive ao abrir a caixa de cartas na quarta-feira foi me deparar com o box de três cd's do Codona enviado pela ECM Records. Eu tinha escrito para a gravadora de Munique, comunicando sobre o nosso interesse em produzir um especial radiofônico do Radar Brasil (Rádio Darmstadt - www.radiodarmstadt.de )com a música do trio, endossando as comemorações pelos 40 anos que a ECM completa em 2009. E eles aprovaram o nosso plano. Muito bom: agora, é só marcar uma data para a transmissão do programa, que já brota com a garantia de ter 60 minutos de excelente música instrumental. (Alô alô internautas, o Radar Brasil pode ser acessado quinzenalmente pela grande rede)!

Conheci o Codona no comecinho dos anos 80. O que moveu o meu interesse pelo grupo foi, principalmente, a participação de Naná Vasconcelos, a quem sempre admirei intensamente desde os tempos em que ele atuava no Som Imaginário, tocando ao lado de outro cara extraordinário na arte percussiva, o baterista Robertinho Silva, ambos da banda de Milton Nascimento. Com o tempo, meu fascínio pela obra de Naná iria aumentar ainda mais, ao vê-lo aderindo a projetos musicais tão díspares entre si, como acompanhar Egberto Gismonti ou Itamar Assumpção, passando por Pat Metheny (com quem também fez a onça beber água), Marisa Monte, Jan Garbarek e Caetano Veloso, dentre outros, deixando suas digitais de gênio nos trabalhos destes, por dominar instrumentos outrora relegados à mera figuração exótica. A partir de Naná Vasconcelos, a percussão passou a ocupar o centro da cena. Era a hora dos batuqueiros virarem frontmen.



COllin Walcott, DOn Cherry e NAná Vasconcelos criaram o curioso power-trio em 1978, um triângulo mágico que iria encantar os amantes do jazz e da música experimental.

Nascido em Nova York, em fevereiro de 1945, Collin Walcott viria a se tornar o líder espiritual do Codona, bem como seu principal compositor. Arisco, foi aprender a tocar cítara com o mestre indiano Ravi Shankar, fundando em 1971 junto a Ralph Towner, Paul Mc Candless e Glen Moore o prestigiado grupo Oregon, vindo a trabalhar também posteriormente com a enigmática compositora norte-americana Meredith Monk, todos eles artistas que giravam em torno do eixo solar, que era o selo alemão.



Don Cherry, trompetista, homem dos sopros, pianista, também nascera na terra do jazz, em novembro de 36, mais precisamente na cidade de Oklahoma. Antes de brilhar no Codona com seu trompete de bolso, seus vocais e também seus instrumentos percussivos, Don já colecionava diversos discos ao lado de Ornette Coleman, do saxofonista argentino Gato Barbieri (com quem Naná também tocou) e do contrabaixista Charlie Haden. Don - pai dos cantores Neneh Cherry e de Eagle-Eye Cherry -, viria a tocar também com monstros sagrados como John Coltrane e Sonny Rollins.



Juvenal de Holanda Vasconcelos, o Naná, estava portanto colado com as melhores companhias, e daí surgiram três álbuns inesquecíveis, lançados em 1978, 80 e 82. Uma trilogia inebriante, que transitava entre o oriente e o ocidente, escancarando as portas da música para as esferas mais elevadas.
Uma arte que teve acolhida imediata pelo visionário alemão Manfred Eicher, o principal responsável pela Edition of Contemporary Music, a ECM.

Quem já teve a oportunidade de escutar "Malinye", composição de Don Cherry do segundo disco do trio, ou "Inner Organs", também de Don e que saiu no derradeiro disco, sabe o quão refinada era a musicalidade dos três quando jogavam juntos. Não estamos falando de afetação de indivíduos com currículos brilhantes, nem da pirotecnia de jazzistas virtuosos chatíssimos, de tão cerebrais. A música do Codona é a magia do encontro de etnias marginalizadas - hindus, africanas e afro-americanas - amalgamadas pela candura do recifence Naná e de seus maninhos norte-americanos, Don e Collin. Numa época em que a indústria fonográfica faturava com as infantilidades da chamada "new age music" - que surgia como bálsamo para um mundo cada vez mais materialista, competitivo e mesquinho (yuppies, Wall Street & cocaína)-, o Codona era a sua antítese definitiva: zen, liberdade estética e astúcia tímbrica, a serem contemplados antes do final dos tempos. Foi assim.

Que maravilha, que a ECM relançou agora, ao comemorar seus 40 anos, essa trilogia. "Legendary recordings of the transcultural pioneers", como dizem eles.

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