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Felipe Tadeu é jornalista especializado em música brasileira, produtor do programa radiofônico Radar Brasil (Rádio Darmstadt). Radicado na Alemanha desde 91, o autor é também conhecido como DJ Fila. Na novacultura assina a coluna »o som do brasil«


 

 

Bossa Nova sem complexo

Não há nada mais constrangedor para um brasileiro obcecado desde sempre por música, do que ter que reconhecer que só passou a apreciar a Bossa Nova quando foi morar no estrangeiro. É o meu caso. Triste caso, já que acabei me especializando como jornalista justamente em música brasileira

Felipe Tadeu, 09.02.2008

, zuletzt modifiziert von nova cultura! am 28.03.2010 um 13:29

Não há nada mais constrangedor para um brasileiro obcecado desde sempre por música, do que ter que reconhecer que só passou a apreciar a Bossa Nova quando foi morar no estrangeiro. É o meu caso. Triste caso, já que acabei me especializando como jornalista justamente em música brasileira.

Nasci em julho de 1962, quatro meses antes da Bossa Nova estourar para o mundo com o legendário concerto do Carnegie Hall, em Nova York, do qual participaram Tom Jobim, João Gilberto, Luiz Bonfá e Roberto Menescal, dentre tantos outros músicos, brasileiros e norte-americanos, que se deleitavam com o estilo. Era, portanto, um guri pequeno, muito novinho ainda para gostar da Bossa.

Minha família é da Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro, bairro mais chegado ao samba, e meus pais não escutavam aquilo que certos jovens da classe média carioca andavam tocando nos apartamentos e nightclubs de Copacabana. Meu descaso por ela já vinha daí: os vinis que chegavam lá em casa eram mesmo de Martinho da Vila e de cantores românticos, lacrimogênios, como Altemar Dutra e Agnaldo Rayol. Mas dentre eles - sorte minha -, já havia um que me chapara logo de cara, vindo a se tornar o primeiro ídolo que tive na vida, em todos os campos. Claro, estou falando de Roberto Carlos.

Roberto era a cristalização perfeita de um cantor latino de rock, que não desprezava a inclinação romântica (alô alô bolero!). Líder da chamada Jovem Guarda, ele foi junto a seus amigos Erasmo, Wanderléa e Martinha a mais perfeita tradução da Beatlemania no Brasil. E aos seis anos de idade, já em pleno curto-circuito da infância, eu adorava como um louco as guitarras elétricas da turma do iê-iê-iê, muito antes de descobrir o Tropicalismo de Gil, Caetano e Mutantes.

Pois bem, como poderia um garoto de seis anos cair nas malhas da Bossa, não fosse por influência dos pais? Os próprios brasileiros já estavam pouco interessados nela, que acabara adotada principalmente pelos jazzistas norte-americanos, entusiasmados pelo seu refinamento e por todas as possibilidades que o estilo oferecia na arte de improvisar.

Quando cheguei aos 10 anos, comecei a me dar conta de que as letras de música eram tão importantes quanto a melodia. Daí em diante, música que prestasse teria que ter versos bem escritos. E do embalo das guitarras elétricas, estiquei para a eloqüência das canções de protesto, passando batido por João Gilberto & Co., que não queriam saber de "mensagens sociais" e eram calminhos demais para mim. Ignorava a grandeza de Vinícius de Moraes e de Tom Jobim como letristas por mero preconceito, e tampouco conhecia Carlos Lyra, que era um bossa-novista bem politizado(assim como Nara Leão, a musa de todos eles).

O rock do Pink Floyd, de Jimi Hendrix, Rolling Stones, The Doors e Led Zeppelin iriam passar progressivamente a fazer parte da minha trilha-sonora de adolescente (de uma cidade cosmopolita como o Rio), me afastando cada vez mais das sutilezas e sofisticações da proposta estética dos bossa-novistas. Havia um abismo filosofal entre o final da década de 50 - os dourados anos JK, que geraram a Bossa -, e a segunda metade dos 60, pós-golpe militar, quando comecei a virar gente.

Até meus 29 anos, a Bossa Nova representou para mim a música modorrenta e alienada, bandeira de um grupo de compositores pretensiosos, velhacos e elitistas.

Quanta tolice a minha!




Agora em 2008 comemoram-se os 50 anos da Bossa Nova e isso é motivo de orgulho para mim. Vivo há quase duas décadas na Alemanha e continuo me surpreendendo cada vez mais com os discos que Tom Jobim nos deixou. O piano caribenho de João Donato, as canções de Vinícius de Moraes ( escritas por um homem verdadeiramente apaixonado pelas mulheres, que se assumia como tal e não as penalizava por isso), as harmonizações de Os Cariocas, o repertório de Carlinhos Lyra e, claro, os concertos fascinantes de João Gilberto, assim como seus álbuns: tudo isso é tão importante para mim, que eu percebo, desde que vim morar no estrangeiro, o quanto era complexado e não sabia.

O Brasil ainda é um enorme mistério.

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