açores
nevoeiro em Frankfurt - e as Ilhas cada vez mais longe
Convidaram-me a participar de um encontro de escritores nos Açores, ilhas benditas no meio do Atlântico, algures entre Europa, ambas as Américas, e a África, porque não, lá ao fundo. Terra de poetas, este arquipélago, e um deles, o Ivo Machado lembrou-se de mim, e aqui estou …
… quase …
Frankfurt amanheceu em nevoeiro. Nevoeiro e chuva e frio e escuro, graças ao Ivo Machado e o fabuloso Governo Regional dos Açores estou a caminho do mítico e lendário arquipélago cujo nome se deve a um bando de pássaros que os primeiros navegantes portugueses devem ter avistado quando lá chegaram (sabedorias da Wikipédia, amigos!), não eram açores, aqueles pássaros, mas sim águias, diz a lenda, ou a história, tanto faz. Faz frio e escuro e nevoeiro em Frankfurt.
Em Frankfurt também já nã há açores. Em terra tão desenvolvida, no maior aeroporto do mundo (pelo menos para nós que nos consideramos sempre os maiores do mundo, tudo que nos é próximo é sempre o maior), não há espaço para pássaros, nem para enganos. Mas sim: Nevoeiro. E de repente, tudo muda:
Aquele pouquinho de água evaporada ou condensada, ao meu ver tanto faz, força a rotina mecânica e eficaz das gigantescas áves metálicas a abrandar o seu ritmo impiedoso. De repente, e só por causa da chuva, do nevoeiro, do escuro, estas máquinas barulhentas e equipadas com tecnologias inimagináveis de eficácia alemã, são forçadas a aterrarem mais lentas, com menos frequência, aquele "um avião por minuto" já não é cumprido ao pé da letra, agora talvez só um avião cada três minutos, e eu que devia dar graças aos deuses por este extra pouquinho de calma, estou atolado. A caminho dos Açores, no meio do Oceano, fico atolado no nevoeiro de Frankfurt.
O avião que devia sair às 9 só sai às 10, e quando aterro no Porto (escala prevista para seguir no mesmo avião que o Ivo Machado, que, como alguns sabem, entende tanto de aviões como de poesia), vejo - ó precisão portuguesa - o avião a caminho dos Açores a levantar voo.
Mais tarde me contam que o próprio Ivo ainda tentou intervir em meu favor. Ó grande país onde os poetas se atrevem a travar os aviões! Mas em vão. O nevoeiro de Frankfurt foi mais forte do que a voz do poeta.
Segunda estação: atolado no Porto. O tempo está quase bom, mas pelo menos quente. Mais tarde sigo em direcção de Lisboa, de lá, se os deuses das tempestades e os nevoeiros quiserem, apanho um voo a Ponta Delgada.
Se a culpa não fosse do nevoeiro de Frankfurt, diria: o Mar, grande mar. Alcançar os Açores é, ainda hoje em dia, uma grande aventura. Respeitem os antepassados que a enfrentaram em barcos e navios e sem avião nem telemóvel. Por outro lado: Para eles não se colocou o problema do nevoeiro em Frankfurt.
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