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Felipe Tadeu é jornalista especializado em música brasileira, produtor do programa radiofônico Radar Brasil (Rádio Darmstadt). Radicado na Alemanha desde 91, o autor é também conhecido como DJ Fila. Na novacultura assina a coluna »o som do brasil«


 

 

A Página do Relâmpago Elétrico

Raros discos me marcaram tanto, quanto o primeiro solo de Beto Guedes. Por que?

Felipe Tadeu, 11.11.2008

, zuletzt modifiziert von nova cultura! am 28.03.2010 um 13:30

Eu tinha quatorze anos quando arrumei meu primeiro emprego. A estréia nesta importante esfera da vida adulta não poderia ter sido melhor, pois era para trabalhar numa loja de discos que pertencia a meu tio Raul, irmão de meu pai. O batente ficava a cinco minutos a pé da minha casa, na Tijuca, e isso já me trazia uma interessante vantagem, que era a de ser visitado durante o expediente pelos meus amigos do bairro. É claro que o que me deixava mais feliz era poder lidar diariamente com música, e a mais variada possível. Não bastasse isso, no final do mês eu ainda teria um salário, o que para um cara que ainda morava com os pais era mesmo muito bom.

Isso foi em 1977, uma época brilhante da música, fosse ela a chamada MPB, ou o rock/pop internacional. A Rotação Discos ficava numa galeria incrustada na esquina da rua Uruguai com Conde de Bonfim, e lá naquele centro comercial havia também uma loja de surf (outra paixão minha), que atraía um monte de cabeludos parafinados (eram todos californianos, pensavam), que davam a maior dor de cabeça aos comerciantes locais, já que viviam zunindo pelos corredores da galeria, deslizando em suas pranchinhas de asfalto - os skates -, um brinquedo novo que chegara ao Brasil para alegria da rapaziada e das meninas mais ariscas.



Se meu tio vivia me catequisando para eu só tocar na loja as canções que eram sucesso de venda, eu não ficava chateado, não. E dá-lhe Roberto Carlos, Benito di Paula, Bee Gees, e os discos das novelas televisivas, bem como os lp's de samba-enredo das escolas do Rio de Janeiro, um verdadeiro "must" para as festas de reveillón. Era realmente super curioso botar para rodar na vitrola gêneros musicais tão diferentes um do outro, o que me instigava a aprender a gostar daquilo que antes era discriminado, digamos, levianamente.

Cena comum: um cliente entrava, e procurava por uma determinada música. A gente pegava o disco, botava pra pessoa ouvir, e ela começava a contar porque gostava daquela canção. Não tinha como não se emocionar com isso, e no final lá estava eu também curtindo aquela balada brega, que o freguês queria mandar de presente para a mãe dele, que morava numa cidade tão longe dali. Isso acontecia muito, como também é corriqueiro, entrarmos num táxi e o motorista começar a contar sobre a vida íntima dele, sem nunca o termos visto antes. É o milagre brasileiro, percebem os estrangeiros.

Bem, aí chegou o dia em que eu recebi o primeiro pagamento. A loja fechada, e meu tio contando a féria, agachado atrás do balcão. Cálculos e mais cálculos, até me passar um maço de notas. Fiquei contente e perguntei para ele se podia descontar dali o disco do Beto Guedes chamado "A Página do Relâmpago Elétrico", que eu já estava paquerando há um tempão ali nas prateleiras de música brasileira. Ele fez um abatimento bacana, e eu a minha primeira grande aquisição na vida: comprei um disco com meu próprio salário. Maravilhoso.



Eu era vidrado no Clube da Esquina, e considerava Beto Guedes o compositor mais inspirado daquela comunidade depois de Milton Nascimento. "A Página do Relâmpago Elétrico" saía quatro anos após Beto ter feito um álbum com Toninho Horta, Novelli e Danilo Caymmi. No primeiro disco da carreira solo, tudo, simplesmente tudo, funcionou como deveria. Do título à capa (de Cafi e Ronaldo Bastos), do repertório à pequenina ilustração que encerrava o encarte do vinil - uma delicada aquarela de Gilberto de Abreu, ornada com fiozinhos de lã (e que acabou virando a capa do "Sol de Primavera", de 1980) -, tudo é primoroso em "A Página do Relâmpago Elétrico". Só Ronaldo Bastos assina quatro letras em parceria com Beto: a emblemática "Lumiar", "Tanto", a canção que batizou o disco e mais "Choveu", esta com um acabamento instrumental extraordinário.

Aliás, havia três temas instrumentais muito fortes no disco: "Bandolim", de Beto Guedes, "Belo Horizonte", um lindo choro do pai do artista, seu Godofredo, e "Chapéu de Sol", um rock progressivo que impressionou a moçada, parceria de Beto e de Flávio Venturini, que vinha a ser o mais ilustre integrante da banda de rock O Terço. Eu, que adorava o grupo desde que conheci o "Criaturas da Noite", LP de 1974, curtia obcecado aquele encontro de mineiros, niteroienses e cariocas que estavam no "Página". E as outras canções também não ficavam atrás, como "Maria Solidária" e "Nascente", ambas do repertório de Bituca (a primeira, parceria de Milton com Fernando Brant; a outra assinada por Venturini e Murilo Antunes), além de "Salve Rainha", de Tavinho Moura e Zé Eduardo.



Essa turma toda de músicos da pesada fizeram arruaça nesse disco. De lá para cá, "A Página do Relâmpago Elétrico" só ganhou importância em minha discografia predileta. Ainda que Beto Guedes nunca tenha sido um cantor à altura das melodias que cria, sempre me emocionei com ele, mesmo que sua veia artística tenha fraquejado desde o "Alma de Borracha", de 1986. O Clube da Esquina fazia a trilha-sonora perfeita para os eventos que minha tribo armava, seja na hora de ir à praia, quando viajávamos de carona, quando bebíamos nossa cerveja, na hora de namorar, ou quando tomávamos banho de cachoeira pelados, como convinha aos descendentes da grande família tupi-guarani.

Hoje, mais do que nunca, ainda me é fundamental praticar a desobediência civil, me dando o direito de viver sem pressa. Não é sempre que consigo, afinal tenho filho para criar, sou um cara de assumir as chamadas "responsas" e ainda tenho muitos sonhos a realizar. Mas a bicicleta ainda sobe paredes. Está lá escrito, nas fabulosas páginas de um tal de relâmpago elétrico.

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