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05.01.2011 felipe tadeu

Toninho Horta – A Alemanha, pela primeira vez.

Felipe Tadeu

Stuttgart, ALEMANHA - Baden Powell, considerado por muitos o maior violonista brasileiro de todos os tempos, viveu durante anos na Alemanha, numa cidade que se chamava curiosamente Baden Baden. Poderia ter vivido até o final de seus dias na terra de Bach, se quisesse. Era muito querido tanto na Alemanha, quanto na França. 

Toninho Horta. Foto: Felipe Tadeu


Já Toninho Horta, o maior guitarrista brasileiro vivo, precisou esperar quarenta anos para subir a um palco alemão e mostrar tudo o que sabe em termos de harmonia, de inventividade e astúcia. Chegou a lançar um álbum na Áustria, o »Toninho Horta in Vienna«, de 2007, que saiu pelo selo PAO Records, mas na Alemanha nada. Vai saber.

O Festival »Film erzählt Musik«, mostra cinematográfica que apresentou em 2010, em quatro cidades alemãs, alguns dos melhores documentários sobre música realizados recentemente no Brasil, foi quem rompeu tal absurdo. Trouxe Toninho Horta para tocar em Stuttgart e Colônia justamente num ano em que o célebre guitarrista revelado por Milton Nascimento mostra sinais inequívocos de grande produtividade, com fôlego para domar três leões e superar a ganância típica dos agentes da indústria fonográfica.  

Generoso como é de seu feitio, Toninho Horta prestou uma extensa entrevista ao nosso site, poucas horas antes de brilhar no palco do Zapata, em Stuttgart, à frente de uma banda que não conhecia há muito tempo, mas que se integrou com desenvoltura às  suas maravilhosas pinturas harmônicas. Quem estava presente, sonhou.


Felipe Tadeu:  O ano de 2010 foi de prosperidade na horta do Toninho. Foi lançada a primeira biografia sobre você, o documentário »A Música Audaz de Toninho Horta«, de Fernando Libânio está em fase de finalização e você foi convidado para fazer dois concertos na Alemanha. Você se sente devidamente reconhecido pelo público e pela crítica especializada?

Toninho Horta:
  Sim, me sinto. Com certeza muita gente conhece o meu trabalho e o valoriza. Tenho um público que engloba aqueles que gostam mais do meu lado cancioneiro, e há também a turma que gosta do instrumental, do lado mais ligado ao jazz. E fora do Brasil também é assim. Na primeira apresentação que fiz neste festival, o »Film erzählt Musik«, em Colônia, havia por exemplo um alemão que veio falar comigo depois do show e que trouxe mais de quinze capas de LP’s e cd’s para eu autografar. Ele tinha discos até  de que eu nem me lembrava mais de ter participado, como num de João Bosco. Agora no release desse livro »Harmonia Compartilhada«, feito pela Maria Tereza Arruda Campos, comenta-se das pessoas terem se surpreendido com a quantidade de coisas que eu tinha feito. Eu mantenho minha carreira como solista, mas sou também um sideman  para muitos cantores e instrumentistas do mundo inteiro. Há quem comente que eu deveria ser mesmo mais reconhecido do que sou, mas como eu fiquei muito tempo circulando,morando quase dez anos em Nova York (N.do R: de 1990 a 1999), e fui 23 vezes ao Japão, rodei pela Coréia, pelo mundo russo, tendo discos ao vivo gravados em diversos países, acabou que essas informações ficaram meio pulverizadas.

Toninho Horta. Foto: Felipe Tadeu 

Felipe Tadeu: Teus admiradores sabem mais da temporada que você passou nos Estates, dos teus trabalhos com jazzistas norte-americanos.

Toninho Horta: Essa biografia cumpre esse relato, trazendo inclusive uma listagem de homenagens musicais compostas para mim por músicos do mundo inteiro. São mais de 50 músicas. Esse momento é realmente muito importante para mim, até porque acabei de comemorar 40 anos da música »Manoel, o Audaz« (Toninho Horta & Fernando Brant), celebração registrada também no disco »Harmonia & Vozes«, que traz participações do pessoal pop do Brasil, como Erasmo Carlos, Ivan Lins, Seu Jorge, Ivete Sangalo, Djavan, Roberto Frejat e Beto Guedes dentre outros. É um disco que marca minha volta ao trabalho autoral, com quase todas as músicas cantadas, e que foi gravado ao vivo no Rio de Janeiro. Isso sem falar que uma semana antes de’u embarcar para a Alemanha saiu meu primeiro dvd, com o filme daquele disco que lancei em 2007, o »Solo ao Vivo«. O dvd se chama »Ton de Minas«, com legendas em português e inglês, com »making of« onde falo sobre minha maneira de compor e minhas influências de uma maneira muito descontraída.

Já que estamos falando de retrospectiva: você diria que o fato mais importante da tua carreira foi o encontro com Milton Nascimento?

Toninho Horta: Com certeza não. Isso foi apenas um acontecimento. A gente até virou parceiro, tínhamos um »clube da esquina« na casa dos Hortas, onde meu irmão, o baixista Paulo Horta,  desde os anos 50 reunia o pessoal para ouvir jazz. Eu era menino, meu irmão levava para casa os músicos que tocavam com ele para tocar ao vivo para a gente. Eram coisas de Ray Connif, do jazz, rumba, bolero e cha-cha-cha, e quando os espectadores íam embora, os músicos ficavam e eu escutava Chiquito Braga (guitarrista que é das primeiras referências de Toninho) até quase de manhã. Ou seja, eu já tinha uma escola quando o Milton apareceu numa dessas noites, vindo do interior de Minas. Meu irmão comentou comigo que iria trazer um rapaz muito talentoso, que cantava bem e tinha músicas muito interessantes. Logo depois Milton passou a frequentar a nossa casa na rua Araxá, em Belo Horizonte. Foi o primeiro clubezinho da esquina dele, antes mesmo de surgir a casa dos Borges (NdR: os irmãos Lô, Márcio e Marilton Borges). Ninguém sabe disso. Milton ía pra lá e cozinhava »mexido« com o Paulo de madrugada. E em 1966, nós dois fizemos uma música juntos, a »Segue em Paz«, que tem melodia minha e letra do Milton, uma canção que só foi gravada pela primeira vez no disco »Solo ao Vivo«, e que Paula Santoro depois também iria gravar.

Então o fato mais relevante foi você ter nascido na família em que você nasceu?

Toninho Horta: Exato, principalmente pelo meu irmão Paulo, mesmo tendo a minha mãe, que colocava música clássica para a gente ouvir e observou que eu, aos três anos, chorei ao ouvir »Clair de lune«, de Debussy. Ela tocava bandolim, meu pai tocava violão, enquanto meu avô por parte de mãe era mais de banda do interior. Ele se chamava João Horta e escrevia missas para São Sebastião e para Nossa Senhora do Rosário. Tenho toda uma pesquisa para fazer sobre a obra dele, da época do barroco mineiro. Estou montando agora o Instituto João Horta para essa pesquisa e pretendo terminar também aquele meu famoso livro de partituras, o chamado »livrão«. Mesmo eu tendo nascido com o meu dom, pude com oito, nove anos de idade ouvir os clássicos de minha mãe e, graças ao Paulo, Wes Montgomery, Ella Fitzgerald, Stan Kenton e aquelas bandas americanas no tempo do samba-canção, pouco antes de vir a Bossa Nova. A geração do meu irmão foi muito importante por ter pulverizado por Minas Gerais toda aquela informação a respeito de música de qualidade. O pessoal do Clube da Esquina absorveu isso. A turma do Paulo era o guitarrista Chiquito Braga, o Waltinho baterista, depois veio Aécio Flávio, que virou tutor meu.

Aécio foi o primeiro músico a gravar uma composição tua, é isso?

Toninho Horta: Foi. Eu estava com 14 anos, e já tinha música gravada. Eu já vim meio pronto, pois escutei muita música desde cedo e evoluí harmonicamente, em concepção, arranjo.


O que representa para você o disco »Clube da Esquina«?clube da esquina

Toninho Horta: Meu envolvimento no disco, minha participação nele é reconhecida pelos músicos. A maioria daquelas bases que foram feitas lá … Eu estava ali no comando das introduções, no esqueleto das músicas. Às vezes não tinha baixista e eu tocava baixo, noutras fui de percussão. Até bateria eu já toquei com Milton, como no disco »Clube da Esquina 2«, na faixa »Ruas da Cidade« (Lô & Márcio Borges), quando nem tinha baqueta e eu peguei um pedaço de uma, que estava quebrada e toquei (risos).  O »Clube da Esquina« ajudou a divulgar o trabalho de todo mundo.


O que te impulsionou a compor canções? Você poderia ter se tornado um compositor exclusivamente de temas instrumentais. Foi teu instinto de sobrevivência que te levou até mesmo a escrever letras?

Toninho Horta: Isso aconteceu naturalmente, eu sabia que tinha talento para isso. Sempre fui uma pessoa aberta para ouvir e curtir todo tipo de música. Eu não tinha preconceito, escutava jazz, mas também tinha as festas de congado em Belo Horizonte, numa época em que não havia muitos prédios altos na cidade e a gente lá no bairro da Floresta, que é bem no alto, no Colégio Batista, vendo os grupos de congado lá longe, no bairro da Concórdia, que era em outro morro. As barraquinhas de São João nas festas juninas, onde eu jogava argolas para ganhar maços de cigarro, e eu nem fumava. Ouvíamos Luiz Gonzaga. E de noite, no rádio, a gente escutava bolero, samba-canção, que eram coisas daquele tempo.  Eu era fã de gente como o cantor Anísio Silva, Tito Madi, Dolores Duran e aquelas baladas de dor de cotovelo, todas muito sofridas, uma época pré-Bossa Nova.  E quando veio João Gilberto, meu irmão me ensinou a batida. Eu pirei e tirei todas as músicas. Quando comecei a  tocar violão mesmo, o que mais fez minha cabeça foi a Bossa Nova, trabalhos como o de Marcos Valle, de Edu Lobo, depois o Tamba Trio. Mais tarde, quando eu já estava com 15 anos, conheci  Vinicius de Moraes pessoalmente, quando ele foi tocar em Belo Horizonte. Tavito, que também era guitarrista e estava começando como eu, é que iria acompanhar Vinicius. As pessoas na cidade viviam se perguntando quem era o melhor, se Tavito ou eu. Cada um tinha um estilo, né? Tavito tocava aquelas coisas meio Baden Powell.

Felipe Tadeu: Acabou que tanto você quanto ele acabaram caindo no Som Imaginário.
Toninho Horta: Pois é, nós dois. Tavito ficava doido para me conhecer, até que um dia a gente se encontrou e não houve rixa nenhuma. Foi amizade total, muito bonito. Mas teve um dia que Tavito não apareceu para tocar com o Vinicius, lá na Faculdade de Direito de Belo Horizonte. Cheguei com o meu violão, o Vinicius apareceu e me perguntou se eu sabia cantar »Chega de Saudade« (Vinicius de Moraes & Tom Jobim). Aí fiquei o tempo todo com Vinícius numa mesa, foi minha glória! No dia seguinte, o jornal Estado de Minas deu uma página inteira com fotos minhas ao lado de Vinicius. Nunca fui de fazer lobby, de ficar puxando o saco, não tinha aquela percepção de chegar junto.  Eu poderia ter pedido a ele para fazer uma letra para mim. Quando Vinicius formou a dupla com Toquinho, teve gente que disse para mim que poderia ter sido comigo. Mas as coisas não acontecem por acaso, né?
 
Você também é um letrista muito inspirado. O fato de ter crescido ao lado de letristas geniais do Clube da Esquina como Ronaldo Bastos, Fernando Brant e Márcio Borges te intimidou a escrever outras letras?

Toninho Horta: Não, eu nunca encrenquei com isso não. As letras que eu fiz até hoje foram mais canções de amor, coisas que faço do fundo do meu coração. A Nana Caymmi quando gravou »Beijo Partido« (letra e música de Toninho) sempre me cobrou de’u ter que fazer mais letras. Minhas letras saem sempre por causa de uma pessoa especial, uma garota pela qual fiquei apaixonado.

E você já pensou em reunir essas canções com melodia e letra tuas num único disco?

Toninho Horta: Não, nunca. Você sabe que isso é uma ideia interessante?! Vou querer gravar esse disco mesmo, a vou te dar os créditos nisso (risos). Eu sempre estou em ebulição com muitos projetos engavetados, mas essa ideia é  legal. Seria um trabalho que eu faria sem pretensão alguma, só para juntar esse material disperso.

Você conheceu a música de Jimi Hendrix pelas mãos de Naná Vasconcelos. Qual foi tua reação ao se deparar com o som dele?  Você ficou chapado por ele ou não ficava bem para um jazzófilo curtir a psicodelia dele?

Toninho Horta: Fiquei chapado sim.  Eu encontrei com o Naná de noite numa ladeira do Catete (Rio de Janeiro), estávamos eu, Novelli e Nélson Ângelo, e Naná falou pra gente: »Vamos comprar um vinho e vamos lá pra casa, que eu vou mostrar um cara pra vocês que se chama Jimi Hendrix.« Aí começamos a beber e a ouvir. Fiquei realmente chapadaço com a musicalidade do cara. Foi fácil para mim compreender outras linguagens sem dificuldade. E o Hendrix não era só um guitarrista virtuoso, era essencialmente um músico. Além dele ter um approach diferente,  ele tinha uma musicalidade absurda.

E os Beatles, que encantaram toda tua geração?

Toninho Horta: Por  eles eu tinha um certo preconceito. Eles tinham aquela música »I Wanna Hold Your Hand« (cantarolando a melodia), e quando eles voltavam no final dela, era quebrado. Eu achava que eles não entendiam nada de música quando escutava aquilo. Fiquei invocado com eles. Mas quando ouvi o disco »Revolver« e vi aquela balada »Here, There and Everywhere« e ainda »Taxman«, com aqueles acordes, aí foi diferente. Geralmente o músico de rock é mais simples harmonicamente, faz um acorde de nona justa, ou de sétima. Aí me surpreendi com os Beatles pelos acordes mais sofisticados. Passei a entendê-los e resolvi ficar de coração aberto pra eles, o que foi muito bom. Pude ver o talento das composições de John, de Paul e de George, talvez o mais lírico deles. O fato deles terem tido como produtor um cara com a categoria de um George Martin foi forte. Eu seria, sem pretenção nenhuma minha, um mini George Martin na gravação de „Clube da Esquina“, pela minha contribuição musical. Mas na verdade foi Wagner Tiso, que era uma pessoa até mais experiente do que eu, que estudou música no Rio, estudou orquestração com Paulo Moura e já vinha de uma formação mais clássica. Ele também era mais velho do que eu e era amigo de Milton desde pequeno. Foi Wagner que colocou aquelas cordas todas, as trompas, flautas no disco. Ele fez um trabalho de complementação da obra, foi o cara que deu os retoques finais na pintura.

Outro capítulo importante da tua carreira foi a organização do Seminário Brasileiro de Música Instrumental, realizado em Ouro Preto, MG em 1986. Você concorda que a década de 80 foi a mais importante para a música instrumental no Brasil?

Toninho Horta: Talvez sim. O nosso seminário abriu muitas portas nessa época. Vários projetos e festivais de jazz começaram a acontecer no Brasil a partir do evento em Ouro Preto. Mesmo que o Rio Monterey Jazz Festival em 1980 já tivesse acontecido, quando Pat Metheny foi ao Brasil e participou do meu segundo disco. Acho que foi a partir do seminário que isso se proliferou. Conseguimos trazer durante 20 dias professores de várias partes do Brasil. Na época das inscrições, ficamos contentes quando bateu na última semana uma inscrição do Acre. Todos os estados brasileiros estiveram representados no evento. Tínhamos mais de 430 alunos fixos, fora os que vinham, ouviam as palestras e íam embora no fim de semana. Foram 23 workshops, 20 concertos e a nata da música instrumental estava lá, com Clara Sverner, Nivaldo Ornellas, Paulo Moura, Rafael Rabello, Sivuca, Orquestra de Cordas Dedilhadas de Pernambuco, e vários grupos como o Zimbo Trio. Foi uma grande mobilização. Depois do seminário surgiu a ideia de Almir Chediak fazer os seus songbooks.

Livros de relevância histórica.

Toninho Horta: Ele vivia me falando, vamos editar o »livrão« (NdR: »Livrão de Música Brasileira«, projeto acalentado pelo guitarrista há décadas, de cobrir 185 anos da história da música brasileira, com a publicação de cerca de 700 partituras de composições). Eu dizia que era coisa de mineiro, que o livro iria demorar (risos).  Já naquela época do seminário eu tinha noção de que teria que ser uma coisa caprichada. Daí ter feito primeiro o seminário, para que a gente pudesse fazer toda uma reflexão sobre tudo o que envolvia a área da música. Em 2011 vamos comemorar 25 anos do Seminário Brasileiro de Música Instrumental, e a prioridade é do livrão. As condições estão bem favoráveis e eu me sinto muito animado de poder finalizar esse livro, que está parado desde 2005 por falta de patrocinio.

E o disco de George Benson que você produziu?

Toninho Horta:  Benson fez uma turnê no Brasil em 2006 e tocou em Belo Horizonte. Numa certa tarde, o guitarrista dele precisou de um instrumento e eu fui levar para eles lá no hotel. Aí conheci Benson rapidinho, disse para ele que era muito fã dele e que iria vê-lo à noite no show. Parece que ele não me conhecia. Fui ver o show, mas ele falou que não queria receber ninguém no camarim, que era para eu aparecer no hotel. Como minha casa era no caminho, peguei meu violão, pus no carro e pensei que, se tivesse oportunidade, tocaria umas músicas para ele. O Juarez Moreira, violonista amigo nosso que é muito competente, me acompanhou. Chegamos lá, fomos para o piano-bar do hotel e esperamos o Benson chegar.  Antes dele subir para o quarto, demos nossos cd’s para ele e ficamos lá embaixo. O staff dele estava todo lá no bar e não deu 20 minutos, eu estava no segundo chopp, quando George Benson desceu e foi para perto do grupo dele. Eu e Juarez estávamos com meia dúzia de pessoas ao nosso lado, e Benson com umas 12 da equipe dele. Aí falei para o Juarez que não estava com vontade de pegar o violão para tocar, mas ele falou que tocaria. Pegamos o instrumento, Juarez começou a tocar e, quando Benson ouviu os primeiros acordes, saiu da mesa dele e ficou ali pertinho da gente. Ficamos juntos até as quatro da manhã, com o violão revezando na minha mão, na de Juarez e na de Benson. O pessoal que estava no piano-bar não acreditou.

Violão cachimbo da paz.

Toninho Horta: Quando eu comecei a tocar para o Benson, depois de Juarez mostrar duas músicas dele, eu só via o Benson com a mão no queixo, dizendo magnificent, magnificent. Acabei uma, ele pediu outra música, fiz mais três, e deu vontade dele tocar várias músicas americanas sem cantar, só solando coisas como »Night and Day«. Aí o produtor dele, que fala português porque é casado com uma brasileira e mora no sul de Minas, e que é amigo de infância de Benson, comentou comigo que ele estava parado na minha. »Ele está querendo fazer alguma gravação contigo«. No dia seguinte, os caras começaram a me ligar. Benson queria que eu conseguisse os melhores músicos da cidade para que fizéssemos um trabalho. E eu o convenci em dois dias da gente fazer uma coisa oficial, que ao invés da gente só fazer uma tarde, irmos para o melhor estúdio de São Paulo para que tivéssemos dois dias de gravações. Entre quinta-feira e domingo eu articulei toda uma galera, mas como ele ainda não sabia direito o repertório, só sabia que queria música brasileira e música americana, , aí pensei em chamar também um pessoal do Rio de Janeiro, para que não fosse só músicos de São Paulo, que são muito bons, versáteis e têm técnica, mas o groove tinha que ser do Rio. Cometi a audácia de chamar três baixistas, três bateras e três tecladistas para o projeto, músicos que iriam se revezar. Dei o orçamento para o produtor dele, e eles toparam. No final, acabou que eu rearranjei todas as 11 músicas que gravamos e toquei em todas elas. Tocamos um punhado de autores brasileiros e Benson escolheu uma do João Donato e uma do Djavan. Nós, que só tínhamos quatro músicas ao começar a gravação, fomos reunindo outras canções que foram sendo apresentadas a ele no meio do caminho. Em dois dias tínhamos o disco todo, com oito músicas que ele quis, mais três nossas, sendo duas minhas e uma do baixista Aurismar Espírito Santo.  Faltou apenas o Benson gravar umas vozes e umas guitarras definitivas, eu tinha uns violões para acertar, mas o feeling do disco estava incrível. Benson tinha falado com os músicos na noite anterior às gravações que ele sabia que os músicos que ali estavam eram os melhores, mas que ele não queria que ninguém tocasse tudo que sabia. Todos tinham que tocar simples, para que as músicas fossem ouvidas no mundo inteiro. E fizemos gravações históricas de »Unforgettable« (Irving Gordon), »Night and Day« (Cole Porter), de »Gentle Rain« de Luiz Bonfá, tracks maravilhosos.

Quando o disco será lançado?

Toninho Horta: Recentemente saiu um disco de Benson pela Concorde, com produção de Marcus Miller. Ele pegou a mesma ideia desse nosso disco brasileiro para fazer »Songs and Stories«, só que o som parece o pop dos anos 80. Não tem o sabor da música brasileira, aquele fresh mais latino que a gente tem. Ficou bom, mas é uma outra história. E o Marcus Miller ainda pegou duas músicas da minha produção, a »Sailing« do Christopher Cross e uma de James Taylor, e abriu o disco com uma e fechou com a outra. Baixou os nossos instrumentos pra caramba e nos deu os créditos de associated production. Na verdade, quem foi o produtor associado foi Marcus Miller.

E a história acabou assim?

Toninho Horta: Eles mandaram o contrato para mim, para que eu recebesse a minha parte, mas eu ainda tenho as outras seis músicas oficiais. O Benson ficou muito agradecido pelo nosso trabalho. No último dia dele no Brasil, houve um encontro pra gente ouvir todas as faixas, tinha umas trinta pessoas no aquário do estúdio, o som bem alto e todo mundo tomando champagne. Gravamos tudo isso em dvd durante dois dias, um acervo de imagens enorme. E ele comentou assim: »Eu viajo por todos os cantos do mundo e, em toda cidade em que vou, tem sempre um produtor que vem me falar de um grande guitarrista na cidade que quer me conhecer. Eu já conheci músicos do mundo inteiro, mas quando cheguei em Belo Horizonte e vi vocês tocarem, não entendi nada«. Todos adoraram ter participado do disco, que foi mesmo uma coisa mágica. Vamos entrar em contato com o Benson de novo para que possamos terminar esse disco e lançar. Mesmo que tenham passado quatro anos, é um trabalho super novo, brasileiro e ao mesmo tempo internacional.

Teu parceiro Fernando Brant declarou certa vez que a diferença entre as tuas composições e as de Milton Nascimento é a de que teus temas têm aura juvenil.  Quem vê essas pulserinhas hippies que você usa não pode pensar outra coisa.

Toninho Horta: Minha mãe tem 101 anos e parece uma jovem de 20, ainda que ela não escute tão bem quando fala ao telefone. O gozado é que quando Erasmo Carlos gravou comigo no disco »Harmonia & Vozes« ele também tinha um punhado delas (risos). Essa é uma característica da nossa família, do gosto pela vida, a generosidade em receber as pessoas. Temos esse espírito e a própria música nos faz rejuvenescer. Eu tento manter esse lado puro, tanto que o que eu aprendi do business durante toda a minha vida foi mais  a me defender dos leões, do que atacar. Minha família sempre acreditou em mim, no meu talento, e eu devo muito a todos eles. Eles tanto acreditaram, e eu tanto insisti, que hoje estou muito feliz com isso tudo. Quando gravei »Manoel, o Audaz«, o produtor Americano colocou o nome dela de »Eternal Youth«, como aparece no meu disco »Moonstone«.

Existe alguma gravação internacional de »Dona Olímpia« (Toninho Horta & Ronaldo Bastos)?

Toninho Horta: Uma das primeiras gravações que saíram foi aquela do Azymuth (disco »Light as a Feather«, de 1979) , uma versão instrumental,  mas de uma banda brasileira, né? A Flora Purim também gravou, cantando a letra do Ronaldo em português.

Vocês poderiam ter muito mais parcerias. A dupla funciona tão bem.

Toninho Horta: Ele ficava insistindo comigo, pedindo para que eu mandasse música para ele para que pusesse letra. Eu tinha aquela preguiça, e ele pegava minhas músicas antigas, instrumentais,  e fazia letra pra elas. »Dona Olímpia« foi uma dessas, mas teve também »Francisca« e »Viver de Amor«, que eram para ser praticamente instrumentais e acabaram virando canções.

Estranho que »Aquelas Coisas Todas« não tenha rendido letra de ninguém.

Toninho Horta: Tem uma letra sim, chamada »Sanguessuga«, do Fernando Brant, mas como ela nunca foi gravada com letra, só aparece na gravação do Tamba Trio com o título em original, e »Sanguessuga« entre parentêses. Há outras músicas minhas que foram letradas por exemplo pela Joyce e que nunca foram gravadas. Se eu fosse falar se tenho alguma preferência, é claro que eu gosto de música instrumental. Adoro orquestração, gostaria de ser maestro numa outra encarnação, mas agora não dá, porque eu gosto muito de viajar, de conhecer outras pessoas, comer comidas diferentes, conhecer outra natureza, outro tipo de linguagem.

Contemplar o planeta.

Toninho Horta: Isso. Me fascina ir tocar em outros lugares e poder fazer as pessoas felizes. 

 


Maria Tereza Arruda Campos:
Toninho Horta. Harmonia Compartilhada

224 páginas
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2010

Edição on-line

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