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15.02.2011 felipe tadeu

Uma noite inesquecível de jazz
… Luciana Souza e a hr-BigBand.

Felipe Tadeu

Frankfurt, Alemanha - A cantora e compositora Luciana Souza realizou ao lado da hr-BigBand um concerto simplesmente inesquecível na noite de 29 de janeiro de 2011. Para quem ainda não conhecia sua performance ao vivo, mas já estava por dentro do quão afiada é a orquestra da Hessischer Rundfunk (conheça o disco que eles lançaram sobre a arte de Hermeto Pascoal e comprove a idoneidade do jornalista), o show foi como uma benção. Um encontro mágico entre uma cantora sofisticada, mas livre de poses de diva fake, e uma orquestra que toca com paixão e destreza técnica notáveis.

O frio que fazia lá fora não era de brincadeira, portanto nada mais justo para com a multidão que lotou a grande e confortável Sendesaal da emissora alemã do que um espetáculo inebriante, seja pela atuação impecável da intérprete brasileira radicada nos Estates, como pelos belos e criativos arranjos aprontados por Jim Mc Nelly para a ocasião. A banda não se intimidou ao passear por um repertório criterioso, formado majoritariamente por temas de Tom Jobim (sete títulos), mas que incluía também um »Chorinho pra Ele«, composto por Hermeto, além de composições da própria Luciana, ou de seus pais Walter Santos e Teresa Souza, compositores paulistas de Bossa Nova.

Luciana Souza partiu corações com »Trocando em Miúdos«, de Chico Buarque e Francis Hime, no momento mais tocante do concerto. »Retrato em Branco e Preto«, outra do Chico, esta feita com Jobim, foi aplaudida com entusiasmo pela plateia de felizardos, com Jim Mc Neely ao piano desfiando sua leitura muito particular da melodia jobiniana.

Foram duas horas e meia de espetáculo, com quinze temas intensos, que exigem dos intérpretes entrega total. »Meu Amigo Radamés«, composta por Jobim em homenagem a seu mestre Radamés Gnatalli, executada só pela BigBand, foi como um milagre.

Poucas horas antes de subir ao palco, Luciana Souza conversou conosco, num papo aqui publicado na íntegra.

Em tempo : O canal de televisão franco-germânico Arte disponibilizou até abril este concerto antológico de Luciana com a orquestra alemã. O filme pode ser apreciado online em: http://liveweb.arte.tv/de/video/Luciana_Souza_hr-bigband/

 

Felipe Tadeu - Como surgiu a ideia desse trabalho com a orquestra alemã, Luciana? Você já conhecia o maestro Jim Mc Neely?

Luciana Souza – Fui convidada pelo diretor da BigBand. Sempre soube através de meus amigos americanos da reputação da banda e da qualidade dos arranjos do maestro. Eu já conhecia muito o trabalho de Jim especialmente com uma banda muito famosa, a The Vanguard Jazz Orchestra, com que ele trabalha em Nova York. Me falaram que a banda alemã era cheia de músicos maravilhosos. Então essa combinação foi um convite irrecusável, mesmo apesar da Alemanha não ser no inverno o lugar para o qual eu prefira ir no mundo (risos).

 

Você já teve oportunidade de ouvir Viva o Som! – The Music from Hermeto Pascoal, álbum lançado pela BigBand?

Luciana Souza - Não. Acabei sabendo agora que eles fizeram esse disco.

 

Você prefere se fazer acompanhar por uma orquestra ou por um pequeno grupo? O caráter intimista da tua música destoa da vocação gradiloqüente das orquestras?

Luciana Souza - Eu gosto de tudo. Cada uma dessas situações apresenta um par de coisas novas. Por exemplo, os arranjos de Jim Mc Neely são tão bonitos, tão no estilo brasileiro de uma big band! São coisas bem mais leves, como se fosse música de câmara, mesmo usando toda instrumentação da banda. Ele soube orquestrar de uma forma que cria vários ambientes, ora parece som de quinteto, noutras parece duo. Não fica aquela coisa pesada o tempo todo. Isso vai muito do talento do Jim, do fato dele ter ouvido minhas gravações originais e ter pego o espírito dos meus momentos. Estou super à vontade com eles.

 

Por falar de convites, você participou como artista convidada no premiado disco de Herbie Hancock River: The Joni Letters(2007). Como foi que você foi parar nesse álbum?

Luciana Souza - Eu sou casada com o produtor do disco, Larry Klein, e inevitavelmente meu nome circula junto aos músicos todos. Somos amigos de Herbie, e era para uma outra cantora ter cantado a faixa (NdR: a música se chama »Amelia«). Não era para eu participar, foi uma coisa mesmo de última hora, porque eles já tinham tudo gravado e o Herbie então me convidou, o que me deixou muito lisonjeada. Não foi nada forçado, foi coisa do acaso, de músico para músico mesmo. Herbie me perguntou se eu queria tentar e eu falei of course!

 

Larry Klein também já tinha trabalhado com a própria Joni Mitchell, não é, a compositora homenageada por Herbie nesse disco dele?

Luciana Souza - Sim, eles foram casados durante dez anos, e trabalhou muito com ela. Eles já estavam divorciados há quinze anos, quando eu me casei com o Larry. Eles trabalharam muito juntos também depois do divórcio.

 

Você é uma pessoa de sorte. Estava no lugar certo e na hora »H«, de Herbie.

Luciana Souza - Imagino que você saiba pela tua vida mesmo, Felipe, que a vida é uma sequência de eventos, circunstâncias, não é um plano na verdade. Quanto menos eu planejo, mais coisas boas acontecem. Tudo para mim tem sido um acaso maravilhoso.

 

Você é filha da Bossa Nova. Teus pais compunham, você foi muito influenciada pelo movimento e tal. Qual a impressão que você tem como artista brasileira radicada nos Estados Unidos desde os 18 anos: a Bossa Nova está agora mesmo em seu melhor momento dos anos 70 para cá?

Luciana Souza - Não sei, a Bossa para mim nunca foi embora. Foi sempre com ela que eu cresci cantando, estudando jazz e outros estilos de música. Ela é a linguagem mais natural para mim, por ser filha de quem eu sou e tendo ouvido o que eu sempre ouvi. Você pode estar detectando uma vigência maior da Bossa agora por causa do aniversário dela (NdR: em 2008 comemorou-se o cinquentenário do estilo brasileiro). Dos anos 60 para cá não parou de ter Bossa Nova, mas com esses 50 anos dela, as pessoas voltaram a falar mais dela. Para mim o jazz está tão vivo quanto a Bossa Nova, quanto a música popular brasileira. Mas eu não sei dizer o que o mercado diz porque eu não vivo no mercado. Eu sou artista, é um outro mundo.

 

Tua postura diante do mercado é condizente com a música que você faz: você opta pela discrição no relacionamento com a mídia. Teu trabalho é cheio de sutilezas.

Luciana Souza - Sabe Felipe, eu acho até que tem muito a ver com as minhas próprias limitações mesmo. Eu tenho respeito pela tradição que eu cresci ouvindo, o meu gosto musical tem muita afinidade com harmonia, melodia, com as letras da Bossa Nova e da música popular brasileira. Eu não sei fazer outras coisas. E eu acho que sei cantar Bossa Nova.

 

Pouca gente sabe que teu pai participou ao lado de João Gilberto, em 1946, do grupo Enamorados do Ritmo, numa época em que eles ainda viviam em Juazeiro, Bahia. O mundo ainda não tinha se admirado por João e ainda não havia Bossa Nova. Décadas depois, você abriu um show de João nos Estados Unidos. Teu pai Walter Santos estava na plateia?

Luciana Souza - Não, estava no Brasil.

 

Você declarou à imprensa brasileira sobre teu grande interesse por poesia, dizendo inclusive que já tinha cantado Carlos Drummond de Andrade. Você já chegou a musicar alguma coisa dele, ou será que recorreu à »Canção Amiga«, poema musicado por Milton Nascimento do disco Clube da Esquina 2?

Luciana Souza - Sim, eu já musiquei, mas agora para ser sincera (pausa). Eu já musiquei tantos poemas, de Drummond, de Manuel Bandeira. Do Drummond eu cantei duas coisas ao vivo, mas nunca as gravei por falta de oportunidade, por não caberem nos discos. Sabe, a gente faz poucos discos para a quantidade de coisas que queremos cantar na vida, não é? Fica muita coisa de fora. Eu até conheço a música do Milton, que é linda mesmo, mas o que eu musiquei de Drummond foi aquele poema que fala »João amava Teresa que amava Raimundo«. (NdR.: O poema se chama »Quadrilha«, e inspirou também Chico Buarque ao compor sua »Flor da Idade«). Mas gravei Elizabeth Bishop (»The Poems of Elizabeth Bischop«, de 2000), Pablo Neruda (»Neruda«, de 2004) e E.E. Cummings (em »Tide«, de 2009).

 

… e no Tide tem também o brasileiro Paulo Leminski.

 Luciana Souza - Ah sim, musiquei um poema dele, que foi o único dos brasileiros que foi parar em disco. Aliás, eu já musiquei uns três dele, sendo que o »Chuva« entrou no »Tide«. Esse poema tem outro nome, a gente é que rebatizou de »Chuva«.

 

Leminski foi amigo de tua mãe. Você o conheceu pessoalmente?

Luciana Souza - Claro, muito. Alice Ruiz, ex-mulher dele, também era muito amiga de minha família. Ela que me deu inclusive permissão para eu gravar o poema. Ela e as filhas dela.

 

Sendo assim, tudo indica que você vai continuar se assanhando a musicar poemas?

Luciana Souza - É uma coisa que sempre achei maravilhosa, porque o poema já vem pronto, perfeito. O poema não precisa que eu o musique, eu é que preciso musicá-lo. É necessidade minha, que gosto de fazer. Agora, eu não sei quanto a continuar gravando, pois eu nunca sei como os discos vão se formar, como vão acontecer. Nesse último disco (»Tide«) coloquei duas poesias do Cummings. As coisas ainda estão nessa direção. É um processo que gosto muito, mesmo só como exercício.

 

Você chegou a fazer show no Brasil para divulgar o teu mais recente disco, o Tide?

Luciana Souza - Eu acabei não indo ao Brasil no ano passado para tocar, fui só para visitar família. O disco saiu e eu não estava lá para lançar. Tive matérias de Carlos Calado e de Mauro Ferreira (jornalistas), mas acabei não indo ao Brasil. Eu sei que o disco vende, é muito legal haver ainda lojas de discos no Brasil, as livrarias que vendem discos.

 

E essa distância que há entre o Brasil e tua carreira? Machuca?

Luciana Souza - Não tenho ressentimento nem rancor com relação a nada. Eu fiz uma opção muito clara quando jovem, que eu iria morar nos Estados Unidos. Essa opção teve consequências muito fantásticas para mim em todos os níveis, musical e pessoalmente. Eu não estou vivendo lá, não vivo na cultura de lá, não estou me apresentando no Brasil e é muito difícil você estar onipresente. Não consigo estar na Alemanha, no Japão, nos Estados Unidos e no Brasil. Não consigo fazer uma carreira mundial porque eu gosto muito de ficar em casa. Tenho uma vida familiar muito bonita, tenho um marido maravilhoso e um filho lindo, e viajar para mim, trabalhar e estar na estrada, é uma coisa que me custa muito. Tenho que fazer opções, e muitas vezes opto por não ir ao Brasil para pegar trabalho em outros lugares, outros mercados que estou tentando abraçar. Agora, não culpo ninguém, nem acho que a culpa é minha. Mesmo se eu tivesse me esforçado muito, talvez não tivesse conseguido firmar meu nome no Brasil. As opções musicais que fiz talvez não sejam apropriadas para o país nos momentos em que elas saíram. Fazer um disco com poesia de Bishop e lançar no Brasil não me parece que seria uma coisa que iria pegar.

 

É o trágico paradoxo do país, que é um celeiro musical extraordinário, mas que não consegue gerar condições dignas de vida para quem cria e faz música.

Luciana Souza - Pessoas como Rosa Passos, Joyce, Leila Pinheiro, como Guinga, Hermeto, como Egberto Gismonti são deuses! Não falta ao Brasil músico de competência, seja cantor ou compositor. A lista é imensa. Eu queria que essas pessoas pudessem viver como deuses.

 

A vivência dos teus pais com certeza contribuiu para que você enxergasse melhor o caminho a seguir, certo?

Luciana Souza - É mesmo. E o respeito que eu consegui aprender de meu pai (NdR.: Além de músico, Walter Santos foi dono do prestigiado selo fonográfico Som da Gente, gravadora que também pertencia a esposa Teresa Souza) e que continuo tendo por essas pessoas que citei e que merecem muito mais do que eu. Quando vejo uma pessoa como Rosa Passos, como Nana Caymmi e Leny Andrade, isso para mim é o que há! Eu estou aqui na minha batalha, coisa do dia a dia. É o meu caminho.

 


entrevista e fotos: Felipe Tadeu

Luciana Souza:
Tide

Verve 2009

website de Luciana Souza
http://www.lucianasouza.com/

website da hr-bigband:
www.hr-bigband.de