angola . brasil . cabo verde . guiné-bissau . moçambique . portugal . são tomé e príncipe . timor lorosae

Antonio Pedro

Os raios intensos: »Tudo foi feito pelo sol«

O baixista Antonio Pedro, ex-Mutantes, prestou uma entrevista exclusiva para nós, cujo tema principal foi o cultuado álbum de rock progressivo que a banda lançou em 1974. Um papo da pesada, que rolou em 26 de outubro de 2013. Liga os amplis, baby!

Por Felipe Tadeu

O disco »Tudo foi feito pelo Sol« voltou a dar o que falar no Brasil, quase 40 anos depois de seu lançamento. Os quatro músicos que gravaram esse álbum voltaram a fazer shows, tocando na íntegra o repertório desse disco. Como é que brotou esse reencontro de vocês?

Antonio Pedro - Rapaz, foi uma coisa que começou virtual. A gente realmente não se encontrava muito. Eu e Rui às vezes batíamos um papo aqui no Rio e tal, mas o Sérgio e o Túlio longe, né? Sérgio em São Paulo e o Túlio em Minas. A gente não tinha contato mesmo. Mas o disco, a gente sempre ouvindo falar aqui e ali, que as pessoas gostavam e tal e começou aquela coisa do Orkut. O disco ganhou logo duas comunidades no Orkut, com o pessoal falando muito bem, até que eu encontrei o Sérgio e a gente começou a conversar. Ele falou, »poxa, por que a gente não faz um som? Tô com um estúdio aqui em São Paulo, apareçam por aqui«! Aí foi amadurecendo a ideia. Falei isso com o Rui, se ele sabia onde o Túlio estava, como é que a gente fazia pra ter um contato com ele. A gente correu atrás do Túlio e ele o achou. »Olha, o Túlio tá lá em Minas e falou que seria ótimo mesmo esse encontro«. Aí a gente combinou com o Sérgio e apareceu por lá, isso em 2006. Foi aquela alegria o reencontro, todo mundo saudável! Levamos nossos instrumentos e passamos dois dias lá, tocando no estúdio dele sem parar, improvisando, aquela euforia total. Aí marcamos mais um encontro e vinte dias depois retornamos lá, pra ir amadurecendo a ideia. Começamos a tocar tudo de novo, mas aí eu já senti uma coisa no ar, diferente. Foi justamente aquela proposta do Barbican (Centre) de Londres, deles fazerem uma reunião tropicalista, uma homenagem aos tropicalistas com todo mundo lá: Gal Costa, Gilberto Gil, Caetano, Tom Zé e os Mutantes daquela fase anterior à nossa. Os Mutantes tentaram se reunir, mas só conseguiram o Arnaldo e o Dinho, que os outros não deu muito certo, né? Então eles pegaram a Zélia Duncan e mais um pessoal, gravaram um DVD e começaram a fazer uns shows pelo Brasil e pelo mundo. O tempo foi passando, até que no ano passado, em dezembro, o Festival Psicodália, no Sul, em Santa Catarina, que é um festival alternativo multimedia bem interessante, nos fez a proposta de reunir a banda, porque lá ainda é muito forte essa coisa do »Tudo foi feito pelo Sol«. O Sérgio tava morando nos Estados Unidos nessa época, a gente se reuniu, ensaiamos dez dias e aí foi uma surpresa absurda, né? Foi impressionante ver aquela galera, quatro mil pessoas, cantando abraçadas, emocionadas, todas as músicas. Depois, no final, aquela quantidade de gente aparecendo com as capas do disco pra gente assinar … Acho que nunca dei tanto autógrafo! Eu nunca imaginei que fosse ver isso. Aí o Sérgio ficou desbundado e falou »vamos ter que fazer uma turnê!« Sérgio voltou para os Estados Unidos, pros compromissos dele lá, com a outra banda na ativa, fazendo turnês. Demorou até a gente poder se reencontrar de novo, o que aconteceu no começo de outubro, com um show em Belo Horizonte, no Sesc Palladium, grandão também, com 1400 lugares, e foi a mesma receptividade. Aí já foi um show mais bem produzido, com cenário, som, e tudo foi gravado pela Rede Minas TV, e vai virar agora um especial de fim-de-ano. A verdade é que o disco já virou uma lenda, né? Um trabalho que foi gravado há quase 40 anos e que vem arrebanhando esse pessoal da nova geração que, procurando na internet, no boca-a-boca, manteve a coisa viva até hoje. Impressionante!

- Você poderia contar pra gente como é que você foi parar nos Mutantes?

Antonio Pedro - Isso também é uma coisa interessante porque, em 1973, eu fazia parte de uma banda chamada Veludo Elétrico com Lulu (Santos), Túlio Mourão, Rui Motta e o Paul de Castro. A banda já tinha tido o Fernando Gama (baixo), mas ele saiu e o Rui me chamou. Eu morava em Niterói, conhecia o Rui de lá, e conhecia o Túlio dos estudos no Instituto Villa-Lobos, na Praia do Flamengo (Rio), que era uma escola bem de vanguarda naquela época. A gente tava fazendo um disco em estúdio na Gamboa (bairro do Rio) e o Lulu já conhecia o Sérgio. Lulu era tiete dos Mutantes. Os Mutantes foram pro programa Som Livre Exportação que tinha na Globo, e o Lulu encontrava com eles lá, ía pra São Paulo também. E o Sérgio começou então a vir muito ao Rio. Ele conheceu uma amiga da gente, a Eunice, começou a namorar ela e passou a ficar mais no Rio. Até que o Arnaldo Baptista saiu dos Mutantes e o Sérgio levou o Túlio pra tocar em São Paulo. Ele ficou desbundado com o Túlio, que era realmente um talento! Aí nossa banda (Veludo Elétrico) já ficou meio capenga, né? Dois meses depois, sei lá, o Dinho (baterista) saiu dos Mutantes porque estava com problemas na mão, não conseguia mais tocar, e o Sérgio pega o Rui! Aí acabou nossa banda! Passou um tempo, e os Mutantes vieram morar no Rio porque o Samuel Wainer Filho, filho do dono do jornal Última Hora, que era um rapaz de dezesseis anos super roqueiro, foi ele por sinal um dos criadores da Rádio Fluminense junto com o Luís Antônio Melo, o Samuel virou empresário dos Mutantes. Ele tinha um sítio muito bom em Itaipava, com quatro quartos e um salão de jogos que podia virar estúdio, e eles vieram, ainda com o Liminha no baixo. Chegaram no Rio a três ou quatro meses de gravar o disco, já com contrato assinado e tal, e o Liminha resolveu sair e voltar para São Paulo. Aí foi o pânico! Eu já tinha ido duas vezes à São Paulo porque o Rui me chamava, pra ir lá na Cantareira, onde o Sérgio tinha a casa dele, e onde eles estavam ensaiando antes de virem para o Rio. O Sérgio já me conhecia, eu também já tinha tocado um pouquinho lá, aí pensaram, “legal, vamos chamar o Pedro”. Aí eu fui, botei as coisas no fusquinha, todo animado, né, puxa, imagina, entrar nos Mutantes, aquele sonho de roqueiro! Começamos a ensaiar num lugar maravilhoso, a inspiração veio logo e gravamos o disco num take só! Foi a metade num dia, e a outra no outro, tudo ao vivo. Sem parada. E esse clima acabou ficando latente no disco, que essa coisa de tocar sem parada precisa ter um entrosamento muito bom, né? Só o vocal foi gravado no outro dia, porque senão ía ficar muito embolado.

- Qual foi tua reação quando soube que iria substituir o Liminha? Era uma responsabilidade danada, certo?

Antonio Pedro- Realmente, a banda era uma responsabilidade! Liminha já era um baixista conceituado, mas aqui no Rio eu já tinha tido umas bandas legais com músicos bons como Rick Ferreira e Mauro Senise. Eu já estava estudando contrabaixo há bastante tempo. Cheguei a ser bolsista da Orquestra Sinfônica, pois meu professor que era tcheco gostava muito de mim e me levou para ser bolsista. Eu fazia aquelas escalas todas, tocava contrabaixo acústico com arco, tava realmente na »ponta dos cascos«. Até que eu resolve que meu negócio era música pop, era rock’n roll. Larguei tudo e fui morar um tempo em Londres. Quando eu voltei é que começou a coisa com o Veludo Elétrico. Enfim, quando houve esse convite (para entrar nos Mutantes) eu tava muito senhor de mim, muito confiante, sabe? Agora, eu tava emocionado por serem os Mutantes, que na verdade eram a melhor banda do Brasil, que tinha respaldo do público, da mídia, tinha o melhor equipamento, os melhores músicos. Eu tava me juntando a essa galera, que era coisa assim de cair o queixo, e eu não esperava essa sorte toda! Mas como os meus amigos já tinha tido essa sorte, por que não eu, né?

– Muito curioso o fato de você já ter tocado com Mauro Senise …

Antonio Pedro- Isso foi quando fui estudar música no Instituto Villa Lobos, em 70 ou 71, não lembro bem. Era uma escola de vanguarda e toda galera de música do Rio (rock, jazz ou mpb), estava indo pra lá. Todos cabeludíssimos e vestidos à moda hippie. Entrei para a banda »A Fenda«, onde o Mauro tocava sax e flauta. Fizemos algumas apresentações no MAM, no Colégio Zaccaria e no teatro da escola. A banda se dissolveu mas eu, ele e o baterista continuamos a fazer umas jams na casa de alguns conhecidos no Rio, Petrópolis e Miguel Pereira. A gente estudava muito e curtia Miles Davis, Coltrane e era o momento do fusion, com a Mahavishnu Orchestra despontando. Depois acompanhamos o cantor Piri Reis e tocamos em alguns festivais, como o de Juiz de Fora. Essa banda se chamava "Ad Libitum". Eu morava em Nikit (Niterói) e costumava ir na casa dele e do baterista. Moravam no mesmo prédio em Laranjeiras. Depois foi cada um pra um lado e estive com ele poucas vezes.

 

- Esse tempo no sítio do Samuel Wainer Filho, que tipo de som vocês escutavam naquela época? Quem eram as principais referências musicais de vocês?

Antonio Pedro- Tinha aquela influência do Yes que era sempre comentada, mas também da música progressiva em geral, Emerson, Lake & Palmer, Genesis, mas a gente também já ouvia a Mahavishnu Orchestra, que era a novidade da fusion que estava aparecendo, do rock com o jazz, de músicos virtuosos, e também do bom e velho rockão do Deep Purple, Lou Reed, Jehtro Tull e todas aquelas bandas do começo dos anos 70, Led Zeppelin, era uma maravilha! Para mim, essa foi a melhor época: do final dos anos 60 e início dos 70, depois dos Beatles, que foram a grande revolução musical. E tinha também a influência do nosso sangue latino, com Santana e coisas do Brasil que a gente curtia como Novos Baianos, Caetano, Gil, tudo misturado.

- Imagino que era especialmente difícil fazer rock progressivo no Brasil daquela época. Fale um pouco da receptividade da crítica. Eles entendiam o trabalho de vocês?

Antonio Pedro - A crítica se dividia, né? Tinha as pessoas que sabiam dar valor ao nosso trabalho, que viam qualidade nele assim como a própria gravadora viu, e tinha também aquele pessoal mais radical, rock’n roll tipo Rolling Stones, que achava que rock era uma coisa mais básica. Rita Lee gravou um disco mais rock básico, as pessoas foram mais pro lado dela. A gente realmente sofreu um pouco com esse preconceito. Nossas letras eram realmente ingênuas, com aquele espírito esotérico hippie, aquela coisa utópica. Já a Rita Lee vinha com aquela coisa mais sacana do rock’n roll, mais sarcástica. Quem curtia o som dos Rolling Stones e de outras bandas do gênero achava que a gente estava desvirtuando o rock#n roll e não era nada disso. E a gente dá uma boa demonstração agora com esses shows de que a gente é que estava certo.

- E o sucesso do disco, que acabou sendo o mais vendido da história dos Mutantes? O sucesso surpreendeu vocês?

Antonio Pedro - Surpreendeu. Na época ele já era o mais vendido, mas o fato dele ter ficado em catálogo praticamente todos esses anos também. Depois que terminou a era do vinil e começou o CD, ele foi logo lançado, isso no começo dos anos 90 no Brasil. Ele sempre esteve em catálogo, sempre estava nas lojas ou no site da Som Livre, até que nessa última edição ele foi relançado com capa de luxo, encarte igual ao original e com três músicas-bônus, que foi o compacto que a gente gravou na sequência do »Tudo foi feito pelo Sol«. Quer dizer, não só pela vendagem na época, mas também pela perenidade do disco, comprovam que ele teve e tem uma grande aceitação.

Depois dos Mutantes, você participou de várias formações de sucesso no Brasil. Foi baixista da Blitz, chegou a tocar com Tim Maia e Lulu Santos … Que avaliação você faz hoje dessa tua passagem pelos Mutantes?

Antonio Pedro - Ela foi determinante porque foi minha entrada no mundo professional. E foi com chave-de-ouro, porque foi um disco conceituado. Os músicos principalmente daquela época gostavam muito. Todo mundo que encontro curtia esse disco. Depois que a gente saiu, eu e Túlio, a gente ficou de 1973 a 76, saímos porque era muito trabalho e pouco retorno, porque a gente era os bandeirantes do rock no Brasil. Saía por aí de caminhão, carregando uma tonelada de equipamentos e era um negócio muito sacrificante. Hoje em dia é tudo bem mais fácil. Eu saí e fui tocar logo com o Tim Maia. Encontrei com ele no Leblon, ele gostava dos Mutantes, o Paulinho Guitarra estava tocando com ele e foi ele que me apresentou ao Tim. Tim veio com aquele jeitão dele, “vamo fazer um som?”, maravilhoso, animadíssimo. Aí gravei com ele o disco de 76, depois saí e comecei a fazer coisas com Lulu Santos de novo. A gente começou a fazer jingles, vinhetas pra Rede Globo, e aí pintou convite do Raul Seixas também. Eu fiz uma temporada com ele no Rio e em São Paulo, voltei a tocar depois com o Lulu e fizemos uma banda com o Arnaldo Baptista, que veio morar no Rio, era a Uns e Outros. Fizemos uns dez shows só e não chegamos a gravar nada porque o Arnaldo voltou pra São Paulo. Aí Lulu começou a faze runs compactos com músicas como “Areias Escaldantes”, parcerias com Nelson Motta, aquela versão “De Leve” para “Get Back” dos Beatles, e começou a ser uma volta do rock’n roll à mídia, porque no final dos anos 70 era a discoteca que tinha invadido o Rio. Tinha o Noites Cariocas, a gente começava a tocar lá, e teve essa virada. Lulu começou a gravar o disco dele, eu já tinha gravado algumas músicas que também entraram no disco dele, e aí surgiu a Blitz. A gente começou a tocar para fazer a inauguração do Circo Voador no Arpoador, e eu vi o maior potencial naquela banda ali. Aquelas coisas engraçadas, das meninas (Fernanda Abreu e Márcia Bulcão) conversando com o Evandro (Mesquita), coisas modernas em termos de letra, de criação, de alegria, pois a gente tava num momento muito feliz. Os shows no Circo eram uma maravilha, lotavam, teve logo uma repercussão na cidade e a gente foi chamado pela EMI para fazer um teste. Gravamos lá algumas coisas e o pessoal ficou logo desbundado com a “Você não Soube me Amar”, que foi o carro-chefe do disco. Nessa mesma época eu gravei com Lobão no primeiro disco dele, o “Cena de Cinema”. Tocava com Marina, tudo na maior loucura de tocar aqui e corer pra lá, até que a Blitz tomou conta totalmente da minha vida. Começamos a fazer shows pelo Brasil inteiro, tipo quatro por semana, aí não pude fazer mais nada, e me dediquei direto à banda até o final dela, em 1986.

- Você se considera um pé-quente?

Antonio Pedro - Ser pé-quente no Brasil não significa muito, porque as coisas aqui no geral são muito carentes. Elas vêm e vão com muita rapidez. Mas a gente teve sorte realmente. Não sou um músico requisitado de estúdio, daqueles caras estudiosos que lêem tudo e se metem em tudo quanto é panelinha, com tudo quanto é produtor. Não tenho muito essa política, talvez seja uma falha minha. Hoje muito pouca gente pode dizer que vive de música. Só aqueles medalhões de sempre, que são senhores da produção deles, com respaldo da mídia há 30, 40 anos que conseguem se manter bem. Mas músico em geral, coitado, é uma coisa muito sacrificante.

- O reencontro do quarteto original que gravou »Tudo Foi feito pelo Sol« terá algum desdobramento além desses concertos que vocês estão fazendo?

Antonio Pedro - Teve essa gravação do show em Belo Horizonte pela Rede Minas, com cinco cameras, grua, iluminação maravilhosa de um cara que trabalha com Milton Nascimento. As imagens devem estar muito boas. Na verdade a gente não teve muito tempo de ensaio. Teve dez meses de interrupção entre o primeiro show em Santa Catarina (Festival Psicodália) e esse de agora. Ensaiamos durante três dias, tivemos alguns problemas no equipamento e muito intervalo para dar entrevista e a gente não ensaiou o suficiente. O show foi muito bom, mas não tão perfeito para se gravar um DVD, porque pra isso você tem que gravar pelo menos três shows, né, para pegar os melhores momentos. Se vai sair algo eu não sei, mas a gente tem ideia, sim, de fazer um disco novo. Fazer uma turnê é um pocuo complicado pra uma banda assim, com 40 anos meio fora da mídia. A gente pode fazer shows mais esporádicos, em lugares mais centrais, tipo Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Curitiba, Brasília, que são lugares que eu sei que vai bombar.

- Antonio Pedro, foi muito bom esse nosso papo. Muito obrigado!

Felipe Tadeu

 

o som do brasil

auf Deutsch >>>>


RaDar Brasil
ouça aqui o programa de 28.11.2013


a coluna musical de Felipe Tadeu

últimas matérias:

Lucas Santtana, Jards Macalé & Jorge Mautner

Gilberto Gil 70 anos

Cae70ano

Itamar Assumpção

Luciana Souza