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Lucas Santtana, Jards Macalé & Jorge Mautner

Tropicalia Yesterday and Today

Os moradores de Frankfurt e arredores vêm tendo a oportunidade de travar um contato intenso com a cultura brasileira desde 26 de agosto, primeiro dia da programação paralela à Feira Internacional do Livro na cidade, evento que é considerado o maior do meio editorial.

No dia 30, foi inaugurada uma exposição de Hélio Oiticica no Jardim Botânico de Frankfurt, onde estão sendo expostas três obras do artista plástico que batizou a Tropicália. Depois da vernissage, subiram ao palco da concha acústica local Lucas Santtana e sua banda, formada por Bruno Buarque na bateria e percussão eletrônicas e Caetano Malta na guitarra. O concerto “Tropicalia Yesterday and Today” tinha também como atrações dois músicos que foram importantes no contexto do movimento tropicalista - encabeçado por Gilberto Gil e Caetano Veloso na década de 60 -, sem no entanto pertencer a ele: o violonista, cantor e compositor Jards Macalé e Jorge Mautner, escritor, cantor,compositor e violinista.

Mote tropicalista

Lucas afirmou que a ideia do encontro dele com Mautner e Macalé partiu do curador Antonio Carlos Martinelli. “Foi ele que propôs de fazermos esse show que vínhamos apresentando pela Europa e pelo Brasil e que chamássemos Mautner e Macalé, fazendo esse link de gerações. É emocionante poder tocar com caras que a gente sempre ouviu em disco desde a nossa adolescência. Estar próximos deles é excitante, da gente pegar essa energia que vem de uma outra época“.

Quando nasceu em 1970, Lucas já estava ligado à história dos tropicalistas por motivos especiais. Diz a lenda que foi o pai de Lucas, o produtor Roberto Santana, quem apresentou Gilberto Gil a Caetano Veloso. Lucas conta no entanto outra versão: “Isso é a maior polêmica, porque meu pai diz que isso não aconteceu. Já o Caetano diz que sim. O que importa é que eles eram de uma mesma geração, se conheciam e trocavam informações, tendo feito juntos os shows de despedidas deles, antes de irem para o exílio”.

Lucas conta mais detalhes: “Freqüentei muito a casa de Caetano. A do Gil, um pouco menos, mas depois fui tocar com ele. Meu pai é primo carnal de Tom Zé”, conta ele, que participou inclusive do álbum “Tropicália 25 Anos”, que Gil e Caetano fizeram em 1993, tocando numa faixa de Gil inspirada na família Santana, “Baião Atemporal” . Lucas chegou a entrar para a banda deGil à época do “Acústico MTV” (1994), tocando com ele por três anos.

Os espectadores que foram assistir “Tropicalia Yesterday and Today” tiveram uma boa surpresa ao se deparar com a linguagem eletrônica do trabalho de Lucas Santtana. O concerto deu uma guinada radical com a entrada do veterano Macalé. Vestindo uma camisa com o símbolo do Super-Homem – uma sutil citação ao filósofo alemão Friedrich Nietzsche -, ele soltou sua versão personalíssima ao violão do clássico de Ary Barroso, “ Na Baixa do Sapateiro”. Depois, engatou um outro samba que arrancou muitos aplausos e até acompanhamento vocal da plateia, com “Favela”, de Padeirinho da Mangueira e Jorge Pessanha.

Quando a apresentação-solo de Macalé chegou ao fim, entrou Mautner já usando um trunfo infalível, o de saber falar alemão, interpretando „Ode an die Freude“, de Beethoven. Filho de austríaco e iugoslava, Mautner cantou também com acompanhamento de Lucas, sua banda e Macalé “Andar com Fé”, da lavra de Gil. A partir daí, o público caiu na dança e não parou mais. Vieram também a canção mais conhecida de Mautner feita com Nelson Jacobina, “Maracatu Atômico”, bem como “Homem Bomba”, parceria dele com Caetano, do álbum “Eu Não Peço Desculpa”, que a dupla lançou em 2002.

Mautner é considerado por Caetano uma das maiores inspirações na criação do Tropicalismo. Foram os Mutantes que apresentaram a música dele ao artista baiano. Com a palavra, Jorge Mautner: “Em 62, quando recebi o Prêmio Jabuti pelo livro que comecei a escrever em 1956, (“Deus da Chuva e da Morte”), eu tinha gravado também um compacto, que tinha de um lado “Radioatividade” e do outro “Não, Não, Não”. O disco foi censurado e ele foi um dos motivos de minha incursão na Lei de Segurança Nacional. Nosso produtor na época queria lançar esse disco nosso e de um grupo chamado O’Seis, que era Rita Lee e os irmãos Baptista (Sérgio Dias e Arnaldo)”.

Mautner conheceu tanto Caetano, como Gil e Macalé em Londres, onde os tropicalistas se exilaram. Em 1971, chegou a rodar lá “O Demiurgo”, com os amigos. “Macalé era o mensageiro de um país misterioso. Glauber considerava esse o melhor filme dos idos do exílio”, contou ele.

Os dois concertos apresentados pelos artistas brasileiros em Frankfurt foram muito bem recebidos pela plateia, ainda que o público tenha sido bem distinto nas duas belas noites de verão.

 

Uma prosa com Jards Macalé

FT- Antes da eclosão do Tropicalismo você já era ligado ao grupo baiano. Te surpreendeu a não adesão de Maria Bethânia ao movimento?

Macalé- Não, muito pelo contrário. Quando ela foi convidada por Nara Leão para assumir o posto dela na peça “Opinião”, montada no Teatro Opinião no Rio de Janeiro, ela foi morar lá em casa. Eu e Bethânia escutávamos música brasileira e composiçoes de Caetano. Ela não tinha preconceito contra o rock’n roll, só que a praia dela era outra. Foi ela inclusive quem chamou a atenção de Caetano para a Jovem Guarda, para o iê-iê-iê. Ela que disse pra ele prestar atenção em Roberto Carlos. O pessoal absorveu algumas coisas dele e Bethânia ficou na dela, fazendo o grande trabalho que ela faz.

FT- Você sempre foi aberto ao experimentalismo. Chegou a trabalhar com o tropicalista Rogério Duprat?

Macalé- Sim, foi ele que fez a orquestração de “Gotham City”(Macalé-Capinam) para apresentarmos no Maracanãzinho (no IV Festival Internacional da Canção, de 1969). Eu pedi para ele fazer a abertura do Batman igualzinho ao original (da série televisiva). Ele escreveu e ficou algo maravilhoso. Rogério Duprat se indispôs com a Globo, porque ele queria reger a coisa com uma roupa da Shell, amarela, e a Globo disse “com Shell não vai”. E Duprat “ou vai com Shell, ou não tem nada”. Quem acabou regendo foi aquele da “pilantragem“.

FT- Erlon Chaves?

Macalé- Ele! Erlon substituiu Duprat na hora. Ele pensou que fosse brincadeira, mas quando chegou e recebeu as partituras, em que dizia „agora todo mundo toca o que quiser“, Erlon ria, achando que „Gothan City“ era ha-ha-ha. Na hora em que cada um da orquestra da Globo tocou o que quis, aquela orquestra enorme, ficou um esporro filho-da-puta! Ele se assustou, mas regeu até o final e foi um escândalo.

FT- Você nessa época já fazia teus próprios arranjos, né?

Macalé- É, mas incipientes. Eu queria ser Tom Jobim, Radamés Gnatalli, Severino Araújo, Guerra Peixe, todas essas minhas influências.

FT- Estamos aqui falando de “Gothan City” e você trajando uma camiseta do Superman, a mesma que vai usar em cena. Você gosta muito de história-em-quadrinhos?

Macalé- Tenho coleção do Brucutu, do Ferdinando, do Fantasma, do Tarzan, Batman e de outros super-heróis. Eu adoro. Eu sou um super-herói. Meio magrinho, mulato, assim acabado, mas que tem o seu valor.

FT- Você chegou a participar do programa “Divino Maravilhoso”, que Gil e Caetano comandavam em 1968, na extinta TV Tupi?

Macalé- Não, nunca fui convidado, e se tivesse sido, não iria, porque não sou tropicalista. Não tenho nada a ver com esse assunto. Conheci todo mundo lá em casa. Quando eles foram pra São Paulo (cidade onde eclodiu o movimento), eu fiquei no Rio estudando com Guerra Peixe na Pro-Arte. Eu queria ser músico na cabeça, teórico, prático, tudo dentro dos conformes. Eles foram para lá e quebrou o pau todo! Eu não sou tropicalista, sou pré e pós.

FT- Nas pesquisas que eu fiz, constava que você tinha estado no programa.

Macalé- Nada! Aliás, foi por causa dele que acabou todo mundo indo em cana, porque a direção do Zé Celso Martinez Corrêa, no natal, botou Caetano vestido de Papai Noel, com dois revólveres de brinquedo, cantando “eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel” (cantarolando “Boas Festas”, clássico natalino de Assis Valente). No dia seguinte, tava todo mundo em cana, para acabar com a brincadeira. Foi demais pra cabeça da ditadura militar brasileira.

FT- Mas você trabalhou intensamente com vários deles na época, como Torquato Neto e Capinam, né?

Macalé- Claro, os meus parceiros são tropicalistas, com exceção de Waly Salomão, que era ligado ao grupo, mas também era outra coisa. Agora, Hélio Oiticica, o dono do nome “Tropicália”, registrado em cartório de 1958, era meu amigo pessoal. Glauber Rocha, “o” Tropicalismo, era meu irmão. Atualmente eu trabalho com o filho dele, Eryk Rocha (que fez documentário sobre Macalé). Ele está bombando no mundo. Enfim, eu tenho passaporte internacional, afetivo e profissional com esses meus amigos. Tem também o Rubens Gerchmann e o Roberto Magalhães nas Artes Plásticas, no Cinema tem o Nelson Pereira dos Santos, o Glauber, Joaquim Pedro de Andrade... Eu circulo em todas as áreas sem me ater à nenhuma formalmente. Eu sou independente até de mim próprio. Procurei isso e acho que consegui.

FT- Você também conheceu Luiz Melodia antes dele ser descoberto pelo Brasil?

Macalé- Foi Waly que sacou Melodia e baixou com ele e todo mundo lá em casa. Eu sou a primeira hora.

FT- Ele é outro que andou sozinho…

Macalé- Completamente. O nome dele já diz: “Melodia”. Ele está em tudo quanto é lugar, está livre.

FT- Você participou também ativamente do disco de Gal Costa de 1970, o „Le-Gal“. Gostou da experiência?

Macalé- Tem também o anterior a esse, aquele que traz “Cultura e Civilização”, que ela gravou e é o mais experimental de todos. É um disco que está no limbo. O experimentalismo que tem ali foi uma loucura. Depois é que veio o “Le-Gal”, mais formal, com capa de Hélio Oiticica.

FT- E com Tom Zé, que era o mais experimentalista da linha de frente do Tropicalismo? Vocês fizeram alguma parceria?

Macalé- Sim, fizemos o “Arena Canta Bahia” e “Tempo de Guerra” em São Paulo, ambas dirigidas por Augusto Boal. Eu era o violonista do barato. Houve também as duas calcinhas que joguei no palco dele, no ano passado, lá em Ouro Preto. Sabe o Wando, o cafona? Pois é, as mulheres tinham mania de jogar calcinhas no palco pra ele, né? Eu não sei o que aconteceu, mas um dia, num teatro em São Paulo, alguém jogou uma calcinha para o Tom Zé. Ele olhou pra ela e começou a fazer um número. Cheirava a calcinha, e, malandro como ele só, começou a espalhar que estava fazendo uma coleção de calcinhas. Resumo: foi uma chuva delas! Até que um dia eu estava em Ouro Preto, com a minha namorada que fazia a direção de um festival de cinema, e ela me disse que ía ter um show de Tom Zé. Fui e comprei duas calcinhas. No show dele à noite, fui me esgueirando até perto do palco, joguei uma, ele pegou, olhou pra mim e falou “Macalé putaquiupariu”, aí eu joguei a segunda. Sabe o que ele fez? Botou uma calcinha por cima da calça que ele tava, pegou a outra e botou na cabeça, com as aberturas na altura dos olhos. Virou um ET daqueles!

FT- A primeira faceta de Macalé que apareceu foi a de violonista, não a de compositor?

Macalé- É, o compositor veio em decorrência.

FT- Nenhuma ?

Macalé- Não, a não ser as duas calcinhas que joguei no palco dele, no ano passado, lá em Ouro Preto. Sabe o Wando, o cafona? Pois é, as mulheres tinham mania de jogar calcinhas no palco pra ele, né? Eu não sei o que aconteceu, mas um dia, num teatro em São Paulo, alguém jogou uma calcinha para o Tom Zé. Ele olhou pra ela e começou a fazer um número. Cheirava a calcinha, e, malandro como ele só, começou a espalhar que estava fazendo uma coleção de calcinhas. Resumo: foi uma chuva delas! Até que um dia eu estava em Ouro Preto, com a minha namorada que fazia a direção de um festival de cinema, e ela me disse que ía ter um show de Tom Zé. Fui e comprei duas calcinhas. No show dele à noite, fui me esgueirando até perto do palco, joguei uma, ele pegou, olhou pra mim e falou “Macalé putaquiupariu”, aí eu joguei a segunda. Sabe o que ele fez? Botou uma calcinha por cima da calça que ele tava, pegou a outra e botou na cabeça, com as aberturas na altura dos olhos. Virou um ET daqueles!

FT- Você chegou a visitar Gilberto Gil e Caetano Veloso no exílio londrino. Tem boas memórias dessa época? Chegou a ver também Jimi Hendrix tocando ao vivo?

Macalé- Foi uma época muito boa. Vi Hendrix, Pink Floyd, Rolling Stones. O negócio ali foi o seguinte: eu estava trabalhando com a Gal, com Capinam e Paulinho da Viola. Nós fizemos uma empresa quando Gil e Caetano saíram exilados, chamada Tropicarte, que era pra organizar nossa produção. Paulinho ficou nela só um pouco, depois saiu pro canal dele. Ficamos eu, Gal e Capinam gastando o dinheiro da Gal, que era a única que tinha dinheiro ali. Nós fizemos o show no Oficina, eu, Lanny Gordin e Gal. Mas aí o Caetano, lá pelas tantas, me procurou. Sabe aquele primeiro disco dele em Londres? Aquela tristeza profunda dele, que você vê naquela capa cinza? O Guilherme Araújo (produtor de Caetano) disse assim, “pôxa, e o Macalé?” Ele sabia da minha relação com Bethânia e todo mundo. Eu faria a direção musical de um disco que seria o próximo dele, o „Transa“. Caetano me procurou, eu tava na Bahia, e Bethânia me disse, “olha, Caetano telefonou”. Daqui a meia-hora, em pleno carnaval, fui à casa dos pais dele, e ele me falou “eu queria fazer um trabalho aqui (em Londres). Sei que você vai desfalcar a Gal, mas eu preciso de você, e se você não vier, não faço”. No Brasil tinha a ditadura, eu falei “vou sim!”. Cheguei no inverno, aquele negócio cinza, um clima horroroso, cheguei deprimido.

FT- …E ficou um tempão trancado no quarto…

Macalé- Sim, durmi uma semana antes de viajar, por medo e depressão. Chegando lá, a gente morou junto numa mesma casa, e aí, no dia-a-dia do cotidiano, nós começamos a fazer o disco que praticamente já estava na cabeça do Caetano. Tanto que a inserção dos motivos folclóricos brasileiros em “Triste Bahia”(música de Caetano sobre texto de Gregório de Mattos), deu uma peça maravilhosa. A minha direção musical foi arredondar tudo. O arranjo é de todos nós, com concepção de Caetano.

FT- Você também conheceu o reggae na Portobello Road?

Macalé- Claro. Quando Caetano canta “walking down Portobello Road to the sound of reggae…”, é que ele tinha passado por lá e ouviu. O Caetano é uma antena danada! Eu fui até a Portobello, numa lojinha de jamaicanos onde a gente comprava maconha, e eu quis aprender o reggae. O cara me mostrou, e como eu era brasileiro, nós trocamos. Ele mostrou o reggae, eu o samba. Foi uma troca justa, né? Botei na introdução de Caetano só aquele negocinho (a batida do reggae no violão), e quando cheguei no Brasil, o Waly me apresentou a letra de “Negra Melodia”, que ele havia feito em homenagem ao Luiz Melodia. E eu então botei um reggae nela. Na primeira gravação dela, eu botei o Gil pra participar. Meio arranjo de “Negra Melodia” é do Gil.

FT- Londres foi uma época pela qual você guarda então muito afeto?

Macalé- Mas eu tenho esse afeto até hoje! Houveram rusgas e brigas e mal-entendidos lá, mas nosotros eramos todos hermanos. Somos todos hermanos.

 

Felipe Tadeu