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12.09.2008 

Um Alentejo imaginado e os abismos da existência humana

Só por Amor, o novo romance de Sofia Marrecas Ferreira é um livro surpreendente. Por várias razões. É um a estória de amor, isso sim. Mas quem esperava algo de amor idealizado num ambiente rural pastoril, ficará  decepcionado. O Alentejo imaginário de Sofia Marrecas Ferreira é um lugar mítico, imaginário às vezes, cheio de magia, mas por isso nem menos áspero.

Mas a o tema deste romance (como no anterior, Da Cor dos seus Olhos) não é a história idealizada da Terra. É uma estória de mulheres (como a do romance anterior foi a estória trágica de uma família – o que aliás já foi título de seu primeiro romance: Uma História de Família): três gerações de mulheres com o Alentejo (imaginado e metafórico) ao fundo.

Pois as mulheres são as donas da terra, neste caso de uma »Herdade das Mouras«, um »monte perdido no meio de outros montes mais ou menos desertos e desabitados, com uma casa térrea, a sua igreja pequena, e um jardim comido pelas estevas e pelas silvas, não longe da Aldeia das Velas, perto do Redondo. Dela se dizia amadiçoada …«, mas muito longe de serem também donas de seu destino. »Nunca houvera homens a morar ali. Embora por lá tivessem passado alguns.«, mas aqueles que lá passarem, sempre deixaram rastros – de desilusão, destrução, desespero.

Numa narrativa esboçada, sempre muito mais próxima da dicção apressada de um conto do que da opulência de um romance abrangente de três gerações, Só por Amor retrata as graças e desgraças das mulheres desta terra esquecida, culminando finalmente na vida de Maria da Luz – fruto de um amor prohibido entre a sua mãe e o filho da empregada, uma menia feia, mal querida pelo pai »oficial«, triste figura e débil mental. Amaldicoada diriam romantizadores desta espécie de »ruralidade«. Mas Sofia Marrecas não pertence a este gênero, nem ao dos neorealistas ou mágico-realistas.

A estória de Maria da Luz finalmente é triste, e cheia de pequenas alegrias afinal. É restrita ao ambiente meio mágico de uma pessoa de pouca mundivivência mas um coração do tamanho do mundo. E é ela que finalmente consegue romper o círculo vicioso, e ser feliz – até com um homem.  

Só por Amor é um livro dramático, mas muito longe do drama barato das estórias de »happy end«. O final feliz deste romance é ambíguo – como a paisagem, o ambiente em que ele se passa. A idealização do Alentejo (certamente um tema na literatura de Sofia Marrecas), não é romântica mas talvez metafórica, uma pista falsa às vezes, uma aparência que finalmente decepciona expectativas para poder ir mais longe.

O topos da existência humana é um termo perigoso, às vezes até patético, mas mesmo assim eu diria, que Só por Amor é uma possível aproximação a certos abismos da existência: A impossibilidade de ser feliz. E o leitor agradece o happy end no final, que é inteligente, pequeninino, modesto: »Tudo fazia novamente sentido«, é a conclusão da protagonista. Para mim, um dos mais conseguidos finais para um livro.

Michael Kegler


Sofia Marrecas Ferreira:
Só por amor.
Edições Asa, 192 páginas
ISBN 978-989-23-0182-2

Outros livros disponíveis:
Uma história de família, 208 páginas, ed. Presença 2000.
Da cor dos seus olhos, 208 páginas, ed. Asa 2007.


 

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