«Os jardins de Bashô»
[carta para a Adriana Lisboa, em torno do seu livro "A cabana dos caquís
caidos"]
querida Adriana,
o teu livro acabo de o frequentar com o coração
está cheio de coisas pequenas e invisíveis, às quais
é preciso estar atento para se sonhar à medida das páginas
e dos passos dos personagens.
Que tu estás no livro foi-me evidente desde o início. Que
bashô te abençoou como quem sopra um incenso para o acender,
vai-se descobrindo depois. Os teus personagens, como entidades expectantes,
pactuaram contigo num ritmo delicado de ir entrando em novas fronteiras e
mundos antigos por redescobrir.
«É como se eu tivesse entrado clandestina, apesar do visto
no meu passaporte. De fininho, para que não me vissem, para que não
vissem as coisas invisíveis que eu trazia na mala».
Mala como livro e livro como bagagem. Porque a vida é algo que
se leva às costas, com custo, ou sobre as mãos, com delicadeza.
A vida e os seus ritmos, as danças do humor e do amor, os fantasmas
da sensibilidade que nos batem à porta como cartas sem selo vindas
do passado. Cartas sem remetente. Rumos ora com paisagem incluída,
ora com páginas em branco para o pincel desenhar futuros e fronteiras.
O que nos faz humanos.
«é muito mais freqüente topar com criaturas que nunca
mais vou ver do que o contrário. A vida não se faz de reencontros.
Faz-se muito mais de tangentes, de movimentos periféricos, de olhares
fugidios que no instante seguinte já se dissiparam».
A vida vai-se fazendo (e desfazendo), então, de viagens, de
deslocamentos mais ou menos evidentes, de episódios que conferem
veracidade aos sentimentos, ou de dúvidas que abrem novos abismos.
Mas nem todos os abismos são labirintos obscuros. Por vezes, o labirinto
é a própria porta e a pedra possível. Por vezes a vida
desliza das costas para a mão, o leve faz-se pesado, e o pesado sorri
com certa leveza. Isto é, os instrumentos da vida nem sempre são
os pés para caminhar, mas o pressentimento de que, ali à frente
(e aqui tão perto) há sempre mais caminho:
«como escreveu o poeta japonês Matsuo Bashô num diário
de viagem, e aquilo que possuímos de fato, nosso único bem,
é a capacidade de locomoção. É o talento para
viajar.»
Trazes em frases curtas a rigorosa delicadeza dos japoneses. O teu livro
parece e talvez seja isso uma aguarela pintada com leves haikais.
Jogas com as identidades, mas as identidades interiores. Não as que
outros julgam sobre nós, mas aquelas que por vezes havíamos
escondido tão cá dentro que se transformaram em raízes.
Assim a raiz pode apontar a direcção de um chão e a
respectiva importância de cada chão pisado pelos personagens
(outras vez como se fossem "chãos" de dentro). O dentro que nos
destrói. O dentro que nos constrói.
«Todo o trabalho de Haruki como desenhista e ilustrador de livros
era cuidadosamente transpassado por uma imagem, uma idéia, algo muito
vago chamado Brasil, meio amazônico, um tanto litorâneo, invadido
por paisagens de dentro e pela vontade de pegar com os olhos um chão
que era vários».
O longe e o perto, perdem dimensão geográfica. Ganham terreno
nisso que a tua voz quis que fosse tão humano. O lirismo e o ritmo
com que descreves paisagens, é também a crueza e a pausa com
que buscas nalgumas pessoas a verdade e a solidão de todas as pessoas.
Os livros fazem-se, afinal, dessas verdades maiores: as mais pequenas, que
são as mais simples, sendo também as mais difíceis.
Como se, de mãos dadas a Bashô, inaugurasses uma irmandade entre
o perto e o longe.
«Fazia algum tempo que todas as vozes humanas já tinham se
calado dentro dos seus pensamentos. O mundo já não falava um
idioma específico. Todas as coisas eram muito longe
dali.»
Estão também presentes as celebrações, partilhadas
entre quem escreve e quem é escrito («O incenso que comprei
era um aroma inspirado por um livro»), foram anotadas as
intuições («Seria, ainda, possível despistar
o coração na linha melódica do pensamento?»)
e com a mão trémula - quis eu imaginar assim - as pinceladas
de erotismo roçaram o amor. No que esta palavra tem de mistério,
no que esse lugar tem de delicado:
«O desenhista e a moça que fabricava bolsas de pano dormiram
juntos na mesma cama durante uma semana. Foi assim: vestidos, pegavam um
travesseiro para cada um. Uma coberta para cada um.»
Se há um país no teu livro a sugerir uma viagem, há
uma viagem no teu livro bem maior que um país. Porque todas as fronteiras
foram criadas para que alguns de nós (viajantes, escritores, poetas,
camponeses, contempladores) pudessem sorrir no momento de as ignorar. Na
tua estória a ideia de perda aparece como janela-sugestão para
o reencontro. Foi assim que li os olhares, foi assim que encontrei os
silêncios que envolvem as páginas. Encontrei sonhos, mãos
e flores como se fossem orações por acender.
«Deve haver como me perder para encontrar aquele lugar no mundo que
nunca foi pisado antes, um território realmente virgem. Deve haver
um modo, quem sabe, de partir em viagem e não regressar
mais.»
Mas o «não regressar mais» é a sugestão
irónica que persegue os personagens. Haverá caminho de volta?
Haverá uma fresta aberta que nos leve à tranquilidade interna?
Haverá uma flor à espera da nossa mão, num qualquer
jardim, no Japão? Saberemos resistir à tentação,
deixando a flor no seu contacto maternal com a terra, com o fluxo
universal?
Sob as nuvens de um certo Japão, encontraste as flores que precisavas
para contar a tua estória. Eram flores fortes como ponteiros de um
relógio maior.
«Mas por que o sol, o gozo, o sorriso? O rio correndo, o vento? Mas
por que a plenitude de horas mansas, se dentro da polpa dos dedos essas horas
tinham agulhas?»
Gente com agulhas nas mãos e no coração. Agulhas que
tinham aprendido algo com as flores: alternavam a sua característica
pontiaguda com um estado de alquímica candura. Eram agulhas, como
direi?, com uma tendência acentuada para virarem flores. Como as duras
verdades que a poesia (quase sempre) transporta.
«O silêncio era um lugar dentro do coração. O
silêncio encobria talvez o perdão necessário, o
armistício, o silêncio era uma
permanência.»
O teu livro, Adriana, está cheio de poemas pequenos e invisíveis,
aos quais é preciso estar atento para se saber sonhar na frequência
que propões: ao ritmo dos orvalhos. Como nos mistérios
intrínsecos à poesia de Bashô. Como nas verdades puras
que a poesia transporta, imitando a vida.
Que o silêncio da escrita permaneça em ti.
Um beijinho,
Ondjaki. [17.6.07]
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